Bruna Iannelli e Rodrigo Menezes
Por Bruna Iannelli
Praça Saens Peña, meio-dia, sol a pino, centenas de pessoas circulando pelo vasto comércio da região. Aliás, é essa grande variedade de lojas que dá origem ao tema dessa reportagem: os planfeteiros de plantão. Chova ou faça sol.
A concorrência entre as lojas faz com que muitos comerciantes recorram a uma mãe-de-obra barata para fazer propaganda. Os planfeteiros são aquelas pessoas que destribuem na rua pequenos folhetos com propaganda de lojas ou serviços.
Adair faz propaganda de um sexshop há dois anos. Além de distribuir os planfetos, ele usa um colete com o nome do estabelecimento:
– É um trabalho muito casativo. E é chato quando você entrega o papel e vê a pessoa amassando e jogando no chão.
– E qual é o seu ritmo de trabalho? – perguntei.
– Eu chego às 9h, que é quando o comércia abre, e só vou embora lá para as 6 ou 7h da noite.
Samantha, 18 anos, faz propaganda de uma loja que compra ouro. Ela diz que tem que distribuir 200 folhetos por dia.
– É difícil. As pessoas desviam da gente. E a gente não pode ir embora enquanto não distribuir tudo. Mas eu sou esperta e descobri um jeito de acabar mais rápido. Não conta para o meu chefe, hein. Eu entrego dois ou três juntos para cada pessoa – confessou Samantha sussurando em meu ouvido.
– E você não tem medo do seu chefe descobrir?
– De vez em quando vem alguém verificar se estamos entragando direitinho. Eu sou esperta e fico atenta pra quando a pessoa chegar, eu entregar um papel por vez. Mas de qualquer maneira, é muito difícil ele perceber porque a gente entrega os dois juntinhos, parece que só tem um mesmo.
Como ela se considera muito esperta, perguntei se estava estudando ou pretendia fazer algum curso profissionalizante.
– Estou terminando a escola. Estou no 8º ano e pretendo fazer algum curso sim. Só não sei ainda de quê, talvez de cabeleleira ou manicure, mas o que eu conseguir está ótimo. Só estou aqui porque preciso ajudar em casa. Meu pai sofreu um acidente e minha mãe não dá conta de tudo.
Samantha já trabalhou distribuindo propaganda de construtoras e até se vestiu de palhaça (ao pé da letra) para chamar a atenção dos motoristas que passavam na Av. das Américas, na Barra da Tijuca, para a inauguração de um novo condomínio no bairro. No período eleitoral aparecem mais oportunidades, porque os candidatos precisam de divulgação para a Campanha:
– Quando chega perto das eleições, dá para tirar um dinheiro bom, mas a gente não tem sábado, domingo, nem feriado, é só trabalho.
– E você é fiel a algum Partido?
– Eu sou fiel a quem me paga mais. Teve um ano que de manhã eu distribuía folheto dos candidatos de um partido e de tarde de um outro partido.
– E eles não descrobriam?
– E se descrobrissem? Eu estava fazendo meu trabalho, eu não era de partido nenhum!
Perguntei o que mais incomodava no trabalho.
– A gente não tem água para beber, banheiro, nada. Se a gente quiser alguma coisa temos que comprar com nosso dinheiro. E para ir ao banheiro, negociamos com o restaurante aqui do lado pra ele liberar a gente pra fazer nossas necessidades. E também, não tem dia ruim, é na chuva, no sol, não tem jeito, tem entregar todos os papéis.
– E o que é bom no trabalho?
– É conhecer pessoas, falar com todo mundo que trabalha aqui na rua, não precisar ficar numa sala fechada.
– O que você diria para as pessoas que passam pela rua?
– Peguem nossos panfletos. Depois de ler, podem jogar fora se não interessar, mas ajudem a gente, por favor!
Enquanto eu conversava com a Samantha, percebi que muito poucas pessoas pegavam o papel. Por mais que ela se esforçasse em colocar bem perto da mão dos pedestres, eles se esquivavam e a ignoravam. Em 10 tentativas da trabalhadora, com direito a sorriso e a um “boa tarde!”, apenas três pessoas pegaram, e uma respondeu ao “boa tarde!”.
Os pedestres que circulam pela Praça Saens Peña têm opiniões variadas sobre os panfleteiros. Maria Aparecida, moradora da Tijuca, é dona de casa e nunca aceita as propagandas:
– Olha como fica a calçada: cheia desses papéis. É uma sujeira! Se ninguém aceitasse pegar, eles parariam de destribuir. O mesmo eu digo sobre aqueles vendedores de balas no sinal, que atrapalham o trânsito. Eles estão ali porque alguém compra a bala deles. As pessoas reclamam, mas não fazem nada pra eles pararem.
Já a Julia, aluna do Instituto de Educação, diz que não se importa, e às vezes pega os panfletos.
– Eles estão fazendo o trabalho deles. Quem joga o papel no chão não são eles, são os pedestres.
Maicon já foi panfleteiro. Hoje trabalha como boy em um Banco da Praça Saens Peña:
– É um trabalho duro, mesmo. Ficar o dia inteiro ali no sol, vendo as pessoas se esquivando de você não é fácil. Eu respeito o trabalho deles porque já passei por isso.
A maioria das pessoas que faz esse tipo de trabalho não tem carteira assinada ou qualquer vínculo empregatício. É um tipo de serviço que se presta de maneira informal. O contrato, muitas vezes, é de boca com o empregador. Os contratados se dirigem ao estabelecimento, pegam os folhetos e vão para a rua para fazer a distribuição.
A rotatividade é alta, pois geralmente esse serviço é considerado um “quebra-galho” depois de uma demissão ou enquanto a pessoa não encontra algo melhor. Percebemos, ainda, que os trabalhadores têm sonhos, e pretendem mudar de atividade o mais rápido possível. Laura é uma dessas pessoas. Há 3 meses perdeu o emprego de recepcionista em um consultório porque o médico se mudou de país, e ela resolveu não ficar parada enquanto não conseguisse uma outra colocação:
– Eu estou estudando para o Vestibular, preciso pagar o cursinho, por isso não tive outra opção enquanto isso. Pretendo fazer Administração, e um dia quero ter o meu próprio negócio.
Laura, assim como outros tantos jovens, sonham. E enquanto seus sonhos não se realizam, a vida precisa seguir em frente, e os caminhos vão sendo trilhados com sacrifícios e muita esperança.
Isso pode ser visto em qualquer canto do Brasil, como a Praça Saens Peña, no Rio de Janeiro.
Créditos da foto: Bruna Iannelli
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