domingo, 4 de dezembro de 2011

Independência também por fazer sucesso



Pedro tem 25 anos, é um típico estudante carioca do 6° período de letras, da UFRJ.
João veio da Paraíba para o Rio de Janeiro em busca de uma oportunidade melhor de vida. Ele tem 27 anos e mora em um quarto e sala, na Lapa, região tradicionalmente conhecida pela burguesia carioca durante a noite e habitada por estudantes de fora do estado.
Henrique Cardoso, é assim que ele é chamado na faculdade, no trabalho, no diretório do partido do PT e em casa. Ele é conhecido assim por estar nas listas de das melhores festas da noite carioca.
Pedro, João e Henrique Cardoso não são amigos mas se encontram sempre num momento do dia: Todas as manhãs de segunda-feira a sexta-feira na mesma universidade – apesar de seguirem cursos diferentes - e nas festas. É impossível fazer qualquer tipo de relação entre seus gostos e afirmam que a vida os levou até ali. Porém, existe uma afinidade entre eles: Um gosta de rock, o outro prefere Jazz e o outro canta música popular brasileira para contribuir à renda mensal mas todos amam a música.
João é o mais desfavorecido economicamente e perceptivelmente mais esforçado do que Pedro que ainda mora com os pais e do que Henrique Cardoso que é “filinho de papai”. Pedro e João se apresentam de quinta-feira a domingo porque precisam do cachê mas, Henrique Cardoso, se reservou ao direito de fazer uma apresentação por semana pelo simples prazer de cantar para o público.
João chega a tocar em quatro lugares diferentes e conseguiu gravar um CD como também Pedro e Henrique Cardoso. Todos acreditam em um sucesso que esta para chegar, mas não até agora. Henrique Cardoso chegou a investir as economias que fez durante seis meses para produzir seu CD. A banda de Pedro pagou 60% do valor para gravá-lo e os pais pagaram o restante. O grupo musical de João não conseguiu fazer tudo de uma vez e demorou quase um ano atrás de patrocínio para finalizar o CD.
Eles querem conquistar fama, dinheiro, sucesso e conseguir a “tão óbvia estabilidade financeira” através da música. Muitos outros “sonhadores do canto” deste Brasil lutam insistentemente por viver somente de música, mas poucos alcançam o sucesso. Outros desistem quando se dão conta que tudo o que tinha foi investido na carreira que acaba não deslanchando. O que conseguem é perder tudo e, muitas vezes, ainda ficam com dívidas por saldar.
Pedro tem uma herança que recebeu da avó, mas não mexeu nesta poupança.
- Só com uma pequena economia eu consigo não gastar o dinheiro que minha avó deixou, manter os meus estudos e poder seguir o meu sonho. O dinheiro que ainda tenho guardado, fica para comprar coisas que vou precisar quando sair da casa dos meus pais” diz ele.
Existem alguns casos em que grupos musicais conseguem alcançar a fama de forma repentina sem grandes esforços e tornam-se exceções que só existem para confirmar a regra.
Um bom exemplo disto é o novo cantor sertanejo de 20 anos, Luan Santana. O adolescente estourou nas paradas de sucesso e hoje é considerado um ícone da nova música pop-sertaneja do país. Aonde se apresenta arrebata multidões e seus discos vendem mais do que clássicos da música sertaneja tradicional que já tem seu trabalho reconhecido pelo público e crítica desde a década de 70.
Uma outra dupla que também chegou às paradas do sucesso de forma repentina é Zezé de Camargo e Luciano. Eles deixaram o interior do país, a família, suas casas e as terras de onde retiravam o pouco dinheiro que sustenta a família para tentarem realizar o sonho de se tornarem profissionais da área da música nas capitais do país. Passaram muitas dificuldades mas conseguiram firmar-se no mercado da música sertaneja tradicional tornando-se, não só campeões de venda do segmento, mas também tendo o seu trabalho reconhecido pela crítica especializada como Arte e não somente música comercial e descartável.
A cantora baiana Ivete Sangalo foi durante algum tempo Crooner de uma banda de Axé Music. Decidiu arriscar a sorte em carreira solo e, por ter tido a capacidade de reinventar-se e dar uma nova roupagem a um segmento aonde antes atuava como mera repetidora de movimentos e ritmos, conseguiu firmar-se hoje como uma artista de voz firme, agradável e afinada e que ousou incorporou hits “lentos” da música pop nacional ao universo antes fechado da Axé Music. Quem antes de Ivete Sangalo alçar carreira solo, havia escutado falar de Adão e Eva sem mencionar as suas partes íntimas e a sexualidade na música baiana?
Até que a fama não faça parte da rotina de Pedro, João e Henrique Cardoso, eles seguem tentando fazer sucesso independente em diversas partes do Rio de Janeiro.
Um grande destaque que conseguiu sucesso rápido, pulando algumas etapas essenciais a consolidação da imagem e que permitiria a avaliação da qualidade do seu trabalho, é a Stefhany, uma menina do nordeste do país que empolgou multidões cantando “– O meu Crossfox, eu vou curtir”. Ela começou a sua “carreira” meteórica quase como uma brincadeira divulgando seu único trabalho de sucesso no You Tube. Chegando até ganhar um carro da Volkswagem por estar fazendo merchan “não intencional” e beneficiando a multinacional.
Seguiu desfrutando seus “quinze minutos de fama”, caiu no ostracismo e está de volta a sua cidade natal sem nenhuma atenção da mídia; tentando ainda em vão emplacar um novo sucesso embalado pela falsa idéia de talento adquirida no pouco tempo em que freqüentou os programas de televisão e pode escutar seu hit sendo tocado nas rádios das 05 regiões do Brasil.
Porém existem alguns exemplos que seguem uma árdua batalha por espaços na mídia para divulgar os seus trabalhos e conseguem, através dos próprios esforços, sobreviver com a comercialização de suas músicas sem a ajuda dos grandes meios de comunicação. Em algumas festas não comerciais que acontecem nas capitais e nas regiões metropolitanas do país, as atrações principais são estes grupos comumente chamados de Bandas Independentes. Eles conseguiram conquistar a atenção de muitas pessoas através do seu continuo esforço para divulgar o seu trabalho através das redes sociais, sites de relacionamentos e blogs .
Há 5 anos, a banda Nova Estado vem trilhando um caminho de tentativas. Seus músicos conseguiram emplacar músicas de sua autoria, fortalecer seu relacionamento com os fãs. Hoje, são cerca de 15 shows mensais aonde apresentam 5 músicas próprias além dos hits que sempre agradam ao público, atraindo, aproximadamente, 100 pessoas por shows.
- O público que tem vindo nos assistir tem aumentado bastante” – comenta Peter Reis, baterista do grupo.
O baterista ainda se espanta com o empenho dos fãs em ajudar a divulgar os trabalhos da banda.
– Nós mostramos nosso trabalho no ORKUT, MSN, FACEBOOK, Spicy e os Caras acompanham e ajudam a divulgar a nossa Banda. Além de, claro, freqüentarem os nossos shows. É gratificante ver tudo isto acontecendo. Nossa banda conseguiu este espaço à custa de muita dedicação e trabalho.

O baterista também afirma que o retorno é satisfatório.

– Não é só “pagar” para estar na mídia. O esforço de todos é fundamental para que possamos estar em evidência e mostrar o nosso trabalho.

Não há como mensurar o tempo que cada banda vai permanecer em evidência, mas, seus nomes devem ficar ao menos marcados na história daquela região.