quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Transporte público no Rio: a realidade nua e crua

Por Daniel Fellows, da UCAM, na Tijuca


Para quem mora na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, a realidade quanto ao transporte público fica bem à parte do que as outras regiões da cidade vivem. Para se ter uma ideia mais abrangente, quase 80% da população residente na região sofre com o déficit do transporte público, o que torna os meios alternativos de transportes (como Kombis, vans e ônibus-pirata) uma saída bastante lucrativa para quem quer trabalhar no ramo.

Rodrigo Gomes, que faz o serviço de transporte alternativo há mais de oito anos, revela que o negócio pode ser promissor, se for levado a sério: “Por aqui a gente tira mais ou menos uns dois mil reais por mês, contando como já pagas a prestação da Kombi, que a gente não pode atrasar, e mais a taxa que a cooperativa cobra de nós, pela diária do serviço”.

As grandes cooperativas chegam a ter cadastradas mais de 200 veículos que fazem, todo dia, o transporte de passageiros para diferentes pontos da sociedade. O número de cooperativas já chega a quase 20. Multiplicando-se o número, são quase 4 mil veículos ao dispor do transporte alternativo, que vem crescendo cada vez mais a cada dia que passa.

A Prefeitura

O prefeito Eduardo Paes e o secretário municipal de Transportes, Alexandre Sansão, já anunciaram há algum tempo o lançamento de um edital de licitação para o transporte alternativo na Zona Oeste da cidade, principalmente na região entre Bangu e Santa Cruz. Pela estimativa da administração municipal, a área abrange 30% da circulação dos veículos usados como transporte alternativo na capital fluminense.

Segundo o edital, as vans e as kombis não poderão mais transportar passageiros. Um micro-ônibus com capacidade para 25 pessoas deve ser adotado como novo transporte, sendo que as linhas não poderão concorrer com as de ônibus já existentes na região. Só poderão disputar as vagas permissionários pré-cadastrados e com associação a entidades, como cooperativas. Mas as normas não impedem a participação de empresas de ônibus na seleção.

De acordo com o secretário de Transportes, a opção por começar a licitação pela Zona Oeste tem a finalidade de tentar por fim a disputa de passageiros pelos donos de vans e empresas de ônibus. O edital exige que os futuros operadores façam rotas apenas dentro dos bairros, em roteiros que não sejam cobertos pelos transportes coletivos.

"Os estudos da prefeitura constataram que existem hoje 163 linhas de vans. Isso é muito. Nós vamos reduzir isso e distribuí-las por cerca de 15 lotes, conforme as rotas. Elas vão circular nos bairros, levando passageiros para alimentar o sistema de maior capacidade, ou seja, os ônibus, que já têm seus percursos definidos", explica Sansão.

O outro lado da história

Para os passageiros e transeuntes que precisam atravessar a cidade e dependem desse tipo e serviço, o transporte alternativo é uma solução viável, mas está longe de ser a saída mais rápida e eficaz.

“A gente tem que madrugar. Tem dias que eu acordo às cinco e quinze pra pegar uma van para o centro e, mesmo assim, fica difícil de arrumar uma vaga sentada! Nem mesmo nas vans eu consigo sentar no banco, direito!”, afirma Cleonice de Souza, de 37 anos, que todo dia faz o percurso Tanque-Centro, em direção ao trabalho.

Já para Jorge Carvalho, que também precisa do serviço das Kombis e vans, o problema também é outro: “Pô, esse pessoal todo, se fosse legalizado, acho que seria melhor. A gente recebe o Riocard da empresa, o que adianta muito a nossa vida, mas nenhuma van aceita isso. O resultado é um grande buraco no orçamento no fim do mês”.

Dona Arlinda Jesus, de 81 anos, também faz questão de reclamar: “Todos esses motoristas de transporte alternativo que se dizem legalizados são obrigados a dar a gratuidade pra gente, que nem fazem os ônibus. Mas quando a gente chega lá e pede para viajar de graça, sempre recebemos um ‘NÃO TEM LUGAR’ na cara! Isso é um absurdo! As autoridades deviam notar isso e tentar dar um jeito, pra melhorar a nossa vida, né?”.

O absurdo é que as autoridades não se pronunciam tanto sobre o assunto. “Só nas horas das eleições, que eles vêm aqui e prometem um monte de coisa pro povão, depois somem e ninguém vê necas do que prometeram ser feito! Eu fico indignado! Já fui à Prefeitura e à subprefeitura, na tentativa de ajudar, principalmente lá na minha comunidade, que a gente precisa muito, mas não adiantou nada”, revela Rogério dos Santos, do morro do Jordão, na Taquara. “É tudo enganação!”, termina ele.

Conclusão
Aquém dos pontos mais ponderantes citados pelas partes acima, a mesma pergunta ainda jaz sobre todos os que sofrem com o serviço deficitário: “QUANDO SERÁ RESOLVIDO O PROBLEMA?”. Não se sabe. Só se vive das promessas alheias.

Talvez seja o caso de apelar para o famosos “pé-de-pato mangalô três vezes”, ou até mesmo “pregar um prego em uma árvore e dar três pulinhos”, enquanto se espera a Kombi certa para o seu destino.

A reza também não está de fora. Seu Olímpio Fraga, de 70 anos, afirma com veemência: “Quando eu tô atrasado pra missa, eu oro, oro, oro, até chegar uma van que possa me levar. E o pior é que funciona! Já fiz o teste. Quando não rezo, demora muito mais”. Piada.

Só falta agora o pessoal instituir outros meios alternativos de transporte para a região, como as charretes tradicionais e os carrinhos puxados por bodes! Mas para quem não quer ter gastos nem com os bichos, há também os meios mais baratos, que nem precisam de tração animal, como as liteiras (para quem for rei ou rainha) e a popular corcunda... Quem se habilita?

4 comentários:

Gabe disse...

Hj trabalho perto de casa, mas quando precisava pegar ônibus para ir trabalhar, me estressava mais na viagem do que no trabalho!Valeu!!

narabrito_rj disse...

Moro na Taquara (Zona Oeste do RJ) e sofro na pele os problemas do transporte público. Para conseguir sair de casa para qualquer lugar tenho que andar 10 minutos até o centro da Taquara e pegar baldeações. Sempre que desejo ir para a Zona Sul devo me preparar para pelo menos 2 horas de viagem. É um absurdo o descaso das autoridades com o povo que paga impostos para sustentar a vida boa deles. Perdemos muito tempo no transporte. E mais ainda nos engarrafamentos que não param de crescer. E eles ainda querem diminuir nossas opções tirando as kombis. Elas podem não ser o ideal mas ajudam muito no dia a dia. O governo deve fiscalizar a situação do ônibus, a superlotação, a passagem cara, a falta de manutenção e monopolio de linhas em algumas regiões. Além claro de aumentar o metrô que aqui no Rio é uma vergonha.

Renata Feital disse...

Daniel,
Ótima reportagem alternativa! Nossa! Como gostei de ler o seu texto. É isso. Não tem muito mistério. Uma matéria simples, porém com uma abordagem crítica, com humor na medida do possível, madura, bem escrita. Adorei. Parece que a sua prática cotidiana de escever no blog só tem contribuído para um melhor desempenho na redação. Muito bom, meu querido, continue assim. (Valor: 10,0)

Paula disse...

Excelente texto! Realmente é essa a realidade nua e crua de quem depende do transporte no Rio de Janeiro, em especial na Zona Oeste.